Barão Vermelho fez o dia nascer feliz na Arena Goiás pelo MotoGP

Publicada em: 23/03/2026 12:03 -

O Barão Vermelho fez o dia nascer feliz, na sexta (20/3), a partir das 20h30, com um show fulminante na Arena Goiás, na Praça Cívica, pelo MotoGP. Durante pouco mais de uma hora, a banda colocou a galera para dançar. Foi uma noite catártica, de hits e alto-astral.

Ao ouvir o riff de “Maior Abandonado”, a multidão se encheu de alegria na Arena Goiás. Milhares de corações batiam forte e marcialmente, ao ritmo do bumbo batucado por Guto Goffi. Rodrigo Suricato soltou a voz: “Eu tô pedindo a tua mão. Me leve pra qualquer lado.”

Lançada em 1984, a faixa-título do terceiro LP dinamitou a caretice. Olha esse Suricato, o cara faz o que quer com a guitarra e com a voz, um bálsamo de talento. Em certa altura, acentuando o seu DNA stoneano, Fernando Magalhães sola tal qual Keith Richards.

É claro: mentiras sinceras interessavam a 10 mil pessoas acertadas em seu ponto fraco: o som carnívoro do Barão. E a noite, já dizia Cazuza, nunca tem fim. Então por que a gente é assim? A pergunta existencialista era um deboche ezequeliano, uma cumplicidade etílica.

Ezequiel Neves, coautor da letra, largava frases à mesa dos bares. No que diz respeito à criação, dava sugestões ao pupilo poeta, com quem dividia o gosto por viver sem medo: ambos amavam literatura e música. Dois espíritos livres e criativos, bem-humorados.

Aqui, ó

Se liga aqui. Vai começar agora “Bete Balanço”, outro rock de “Maior Abandonado”. Pura latinidade, como se Carlos Santana tivesse encontrado Jimi Hendrix no Rio de Janeiro, em 1984. A música aterrizou nas rádios naquele ano, além de ser trilha do filme homônimo.

Suricato, dono absoluto do palco, retalhou ouvidos desconfiados. Há nove anos no Barão, o artista se mostra guitarrista habilidoso. Possui evidente respeito pelo estilo voraz da banda, mas adiciona ali seu tempero timbrístico. O resultado é devastador: rock rejuvenescido.

As pedras continuaram a rolar pelo Setor Central. Não, não diga que a canção está perdida: tenha fé em Deus, tenha fé na vida. “Tente Outra Vez”, versão dos barões para a canção de Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta. Presença certa nos shows desde os anos 2000.

Pelo sistema de som, ressoaram acordes pensantes e dançantes. O Barão saltou dos anos 1980 para o CD “Balada MTV”, de 1999, no qual o grupo revisitava sua carreira até então com arranjos, digamos, mais lights. Mas, de repente, era “Carnaval” — delírio e sonho noturnos.

Rolou “Pense e dance”, de 1988: “Penso como vai minha vida. Alimento todos os desejos. Exorcizo as minhas fantasias. Todo mundo tem um pouco de medo da vida.” Após a saída de Cazuza, esse hit de Frejat, Guto e Dé reposicionou o Barão no mercado fonográfico.

Beijando uma flor sem se machucar, o Barão fez de tudo para os desejos goianienses. Mas “O Tempo Não Para”, para evocar esse protesto bradado por Cazuza e Arnaldo Brandão em 1987, relido pela banda no “Balada MTV”, de 1999, e no “MTV Ao Vivo”, de 2005.

Com interpretação inenarrável, Suricato diz: “Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro. Transformam a porra do país inteiro inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro.” Em seguida, um solo de bateria. Aí os barões informam quem são seus bons amigos.

De Guto Goffi, Maurício Barros e Fernando Magalhães, “Meus Bons Amigos” catapultou o disco “Carne Crua”, de 1994. A música, injetada nas rádios à época, é costurada por um riff de Fernando, cuja destreza em seu instrumento se revela (ainda mais) quando sola.

Eis um dos momentos mais sublimes da noite: “O Poeta Está Vivo”. Enquanto os barões executavam a composição de Frejat e Dulce Quental, o telão trouxe mensagens contra o etarismo e a condição das mulheres no mercado de trabalho. Mais uma vez, Fernando brilha — sua guitarra ciciou ternura lírica. “Amanheceu o pensamento”, modula Suricato.

Amor, meu grande amor

Suricato, então, performou mais uma da dupla Frejat-Cazuza: “Todo Amor que Houve Nessa Vida”. É do primeiro LP, essa. Também de 1982, o Barão blueseou — antes do sol socar a cara de geral — a versão nova de uma velha história. “Eu ando tão down. Down… Down…”

Como não curtir essa voz amarfanhada tal qual lençol depois de uma noite de sexo? Então, “Amor, Meu Grande Amor”, chegou a hora de celebrar Angela Ro Ro, essa Billie Holiday de Copacabana: um clássico dela e Ana Terra. As lágrimas escorriam dos olhos apaixonados.

Foi catártico, foi libertador, foi aliciante. Foi o clímax. Agora, no entanto, vem a dúvida: o blues de Ro Ro veio antes ou depois de “Por Você”? Bem, a resposta está esfumaçada. Seja a ordem que for, a canção de Frejat, Maurício Barros e Mauro Santa Cecília emocionou os casais.

Maurício assume o microfone e, ao estilo Joe Cocker, convida o público para andar pelo Rio: “Malandragem Dá um Tempo”, samba de Bezerra da Silva transformado em rock pelo Barão no CD “Álbum”, de 1996. O tecladista ainda comanda a rapaziada em “Amor Pra Recomeçar”, que fez com Frejat e Santa Cecília, em 2001. O dia, meu bem, estava por um triz.

Feito flores a brotar na imaginação, o Barão se atirou aos teus pés no rock “Exagerado”, parceria entre os compositores Cazuza, Ezequiel e Leoni. A banda dança em “Puro Êxtase”, como se estivesse com a pílula na boca. Era tudo o que restava “Pro Dia Nascer Feliz”.

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